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Les Misérables

14 fev

Les-miserables-movie-poster1Estava devendo ver esse filme desde sua estreia. Apesar de não conhecer nada da peça (além da canção I Dreamed a Dream, graças ao fenômeno Susan Boyle =p), sou louca por musicais e gosto de conferir todos os que posso, principalmente quando adaptados pra tela. E o diretor dessa versão de Les Mis é Tom Hooper, o mesmo do fofíssimo O Discurso do Rei, ou seja, todas as razões pra acreditar que seria excelente. 

Após ler a detalhada resenha da Valéria Fernandes sobre a produção ontem de manhã, me animei a assistir Les Mis de tarde. E não me arrependi.

O filme é grandioso e glorioso. Realmente impressiona. Sem conhecer nada da história, me surpreendi e cheguei a chorar em diversos momentos. Apesar das quase três horas de duração, não achei o filme tão cansativo como todos falam (tirando pelo fato de que no um terço final eu já estava querendo ir ao banheiro, e isso porque já tinha ido antes do filme começar =p).

Nunca tinha me interessado por Les Mis, tinha mais curiosidade em ler o livro de Victor Hugo (autor com o qual tenho mixed feelings desde O Corcunda de Notre Dame).  Mas nesse caso, foi ótimo não saber nada do musical de antemão — fui surprendida com as excelentes canções, cheias de rimas ricas, e melodias que voltam nos momentos certos da peça história, como deve ser um bom musical. Muitos reclamaram do filme ser um “musical intensivo” — até mesmo os diálogos são cantados — mas classifico Les Mis mais com uma ópera, embora claro o estilo de canto seja totalmente diferente. 

Por sinal, vale dizer que as músicas não foram dubladas. Cada performance registrada no filme foi feita ao vivo; nos bastidores, um pianista fazia o fundo musical para os atores cantarem, o que depois era substituído pela versão orquestrada. Esse detalhe fez toda a diferença e conferiu ao filme uma veracidade poucas vezes vista.

O grande receio ao adaptar uma peça para as telas é que tudo soe muito  muito “falso”, mas o diretor foi muito feliz em suas opções, como fazer os atores cantarem de forma mais “crua”, bem menos impostada como é no teatro, equilibrando o toque épico com elementos mais realistas. Também foi genial fazer várias cenas pegando close ou plano americano dos personagens, bem de perto, pra explorar o que só o cinema pode oferecer — a sutileza das expressões — e o teatro, não.

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Falar de certas interpretações é chover no molhado. O mundo sabe que Hugh Jackman e Anne Hathaway estavam perfeitos, e não por
acaso estão concorrendo ao Oscar por seus papéis. Como Jean Valjean, o homem que ficou preso por 19 anos por roubar um pedaço de pão, Jackman carrega o filme nas costas. Embora não tenha a voz mais bonita do mundo, sua interpretação soa verdadeira a cada nota, e o carinho que ele demonstra pela pequena Cosette é tocante. Impressiona também como Jackman muda de uma fase para outra da história: esquálido e de voz envelhecida quando mostrado na prisão para bem apessoado com uma voz cheia de energia em sua fase próspera. 

E Hathaway como Fantine, a mãe solteira obrigada a se prostituir pra sustentar a filha… o que dizer? Apesar de seu tempo em cena ser curtíssimo, é dela o rosto do filme. Sua cena cantando I Dreamed a Dream é uma das mais impressionantes que já vi no cinema. Filmada em uma só tomada, sem um corte sequer, com o ângulo fechado em seu rosto, ela canta de forma visceral. Anne Hathaway emagreceu 12 kg pro papel,  e seu aspecto cadavérico realça ainda mais sua boca e seus já enormes olhos, intensificando sua expressão. Podemos sentir toda a emoção da música em seu olhar cheio de lágrimas, e desafio alguém a assistir a cena sem ao menos ficar com um nó na garganta.

Fiquei muito surpresa com Russell Crowe, um ator do qual normalmente não gosto, como o obsessivo policial Javert, o grande vilão. Apesar de não possuir técnica e sua interpretação ser bem contida, gostei MUITO dele cantando — uma das mais bonitas vozes do filme, na minha opinião. Fiquei triste com as críticas de jornais e revistas que o jogaram lá embaixo, dizendo que destoava do filme.  Para mim, combinou perfeitamente com o personagem, que é bitolado, travado, preso em seu próprio modo de pensar.

Les MisérablesTambém fiquei triste com as críticas que chamaram de “insuportáveis”  Helen Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, o casal Thénardier, tutores tirânicos da pequena Cosette. A função deles na  história é mesmo ser o alívio cômico, e achei que estavam na medida. Aliviavam a tensão na hora certa e sem ser apenas palhaços, mas repulsivos, como cabia ao filme. Acho que não seria a mesma película sem eles.

O elenco infantil também está de parabéns. As crianças que fazem  a filha de Fantine, Cosette, e o menino de rua Gavroche, estão impecáveis —  mas ouso dizer que Gavroche  realmente rouba a cena. O personagem representa o espírito jovem dos revolucionários, e o menino Daniel Huttlestone, com sua simpatia e talento, passa essa ideia perfeitamente. Tomara que siga carreira!DanielHuttlestone_620_122112

Infelizmente a parte romântica da peça — o envolvimento do revolucionário “filhinho de papai” Marius com Cosette —  a meu ver, deixa a desejar. O intérprete de Marius, Eddie Redmayne, tem uma bela voz, mas não há muito mais a se dizer sobre ele e mais difícil aida é criar empatia por sua história de amor. O mesmo com Amanda Seyfried, a Cosette. Muito mais envolvente é o drama de Éponine (Samantha Barks, a mulher da cintura mais impossivelmente fina desse mundo o.o), a filha dos Thénadier, perdida numa paixão impossível por Marius.

A história se passa entre 1815 e 1832, pegando o período da morte do general Lamarque, o único que apoiava o povo, insatisfeito com Coroa. E é na revolução que o filme encontra suas cenas mais poderosas, e as canções mais marcantes. Impossível sair do cinema sem cantarolar “Do you hear the people sing / Singing the song of angry men…”

Enfim, é um grande filme. Não me arrebatou como por exemplo, Django (sobre o qual vou tentar falar aqui depois, e que tem um apelo além do racional pra mim), a ponto de virar referência pessoal, mas me impressionou, me satisfez e me encantou.  Acho que assistiria de novo. E para quem gosta de musicais, é simplesmente imperdível.

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